Há dias em que a tua mente parece um céu cheio de estrelas em movimento, cada pensamento a brilhar, a chamar atenção, a querer ser o primeiro. Há outros em que te sentes constantemente distraído, os teus olhos saltam de um pormenor para outro, como se o mundo fosse um jardim de caminhos paralelos sem um fim claro. Se isto te soa familiar, talvez tenhas esbarrado com algo que muitos vivem em silêncio: a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) na idade adulta — uma experiência que vai muito além da simples “falta de foco”.
Ao contrário do que muitos pensam, a PHDA não desaparece com a idade e não é uma questão de esforço ou falta de vontade. Estudos recentes indicam que esta condição frequentemente persiste na vida adulta, refletindo-se em dificuldades de atenção, organização, planeamento e regulação emocional que podem interferir com o funcionamento diário e a sensação de bem-estar.
Ser adulto com PHDA é viver com uma mente que nunca faz “pausa”, sempre à procura de estímulos, sempre pronta a saltar de um pensamento para outro. Muitas pessoas relatam a sensação de estar “a mil”, com milhares de ideias a dançar na cabeça, mesmo quando tudo o que se quer é simplesmente fazer uma tarefa simples — como pagar uma conta, organizar a agenda ou concentrar-se numa conversa. Estas dificuldades não são fruto de falta de inteligência ou preguiça: resultam de diferenças na função executiva do cérebro — como planeamento, inibição de impulsos e regulação de emoções — que estão intimamente associadas à PHDA.
A PHDA no adulto pode manifestar-se de formas subtis e variadas. Para alguns, é a distração constante que torna um projeto de trabalho interminável. Para outros, é a impulsividade verbal que se manifesta nas relações, ou a desorganização crónica que transforma compromissos simples em batalhas diárias. E para muitos, há o peso emocional de se sentir diferente numa cultura que valoriza a eficiência constante, como se todos devessem funcionar com o mesmo relógio interno.
E há também outra dimensão menos falada, mas igualmente poderosa: a regulação emocional. Pessoas com PHDA frequentemente experimentam emoções intensas e rápidas, com dificuldade em “acalmar” a resposta interior, algo que estudos também identificam como parte integrante do quadro.
Mas nem tudo é sombra. Reconhecer que vivemos com PHDA pode ser como abrir uma janela num quarto demasiado quente — entra ar fresco e clarifica-se o que antes parecia inexplicável. A auto-compreensão liberta. E a ciência, atualmente, está a reconhecer cada vez mais esta condição no adulto, com protocolos diagnósticos estruturados e evidências que validam a experiência de milhares de pessoas que, durante anos, sentiram que algo “não estava certo”, sem saber o quê.
Uma Perspetiva de Cuidado e Direção
Se identificas estas sensações em ti — a dificuldade em gerir o tempo, a organização, a tendência a procrastinar, o sentimento de estar sempre “a pensar demais” —, é importante saber que não estás sozinho/a. O caminho começa com escuta e validação.
Do ponto de vista psicológico, existem estratégias que podem realmente fazer diferença:
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Explorar e reforçar estratégias de gestão de tarefas e organização de atividades,
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Aprender ferramentas que auxiliem a autorregulação emocional e redução de impulsividade,
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Trabalhar rotinas de sono e auto-cuidado que minimizem a sobrecarga cognitiva,
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E, sempre que necessário, integrar a intervenção farmacológica como um complemento que pode equilibrar áreas neurobiológicas intensamente envolvidas na PHDA.
A investigação no domínio da PHDA no adulto mostra que uma abordagem integrada — que combina terapia, psicoeducação, suporte psicossocial e, quando adequado, medicação — produz os melhores resultados na melhoria da qualidade de vida e do funcionamento quotidiano. actamedicaportuguesa.com
O Que Realmente Importa
Ter PHDA não é uma falha de carácter. Não é uma escolha. É uma forma diferente do cérebro funcionar — intensa, complexa, com luzes e sombras — que merece ser entendida com ternura e respeito. Cada pessoa com PHDA carrega consigo não apenas desafios, mas também potencial para criatividade, hiperfoco em áreas de interesse e originalidade de pensamento — florescendo muitas vezes quando encontra contextos que acolhem esta diferença.
Se este texto encontrou um lugar em ti, se tocou uma experiência que já conheces, lembra-te: cada passo de autoconhecimento, cada estratégia aplicada, cada esforço por compreender o teu cérebro, é um poema que estás a escrever para ti. A tua história merece ser ouvida com empatia, e a tua caminhada merece ser acompanhada com ciência, cuidado e humanidade.
Se ao longo desta leitura sentiste que muitas destas palavras poderiam estar a descrever a tua experiência, é importante saber que hoje existem processos de avaliação psicológica especializados para o diagnóstico de PHDA no adulto, baseados em critérios clínicos rigorosos e em instrumentos validados cientificamente. Enquanto Psicóloga Clínica, com formação e experiência nesta área, realizo avaliações cuidadas e integradas, que procuram compreender não apenas os sintomas, mas a pessoa na sua história, nos seus contextos e na forma única como vive o seu funcionamento cognitivo e emocional. O diagnóstico, quando feito com rigor e sensibilidade, não é um rótulo — é muitas vezes um ponto de partida para o alívio, para a organização interna e para escolhas terapêuticas mais ajustadas e conscientes.






