sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

PHDA no Adulto: Quando o Cérebro Não Se Desliga

 Há dias em que a tua mente parece um céu cheio de estrelas em movimento, cada pensamento a brilhar, a chamar atenção, a querer ser o primeiro. Há outros em que te sentes constantemente distraído, os teus olhos saltam de um pormenor para outro, como se o mundo fosse um jardim de caminhos paralelos sem um fim claro. Se isto te soa familiar, talvez tenhas esbarrado com algo que muitos vivem em silêncio: a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) na idade adulta — uma experiência que vai muito além da simples “falta de foco”.

Ao contrário do que muitos pensam, a PHDA não desaparece com a idade e não é uma questão de esforço ou falta de vontade. Estudos recentes indicam que esta condição frequentemente persiste na vida adulta, refletindo-se em dificuldades de atenção, organização, planeamento e regulação emocional que podem interferir com o funcionamento diário e a sensação de bem-estar.

Ser adulto com PHDA é viver com uma mente que nunca faz “pausa”, sempre à procura de estímulos, sempre pronta a saltar de um pensamento para outro. Muitas pessoas relatam a sensação de estar “a mil”, com milhares de ideias a dançar na cabeça, mesmo quando tudo o que se quer é simplesmente fazer uma tarefa simples — como pagar uma conta, organizar a agenda ou concentrar-se numa conversa. Estas dificuldades não são fruto de falta de inteligência ou preguiça: resultam de diferenças na função executiva do cérebro — como planeamento, inibição de impulsos e regulação de emoções — que estão intimamente associadas à PHDA.

A PHDA no adulto pode manifestar-se de formas subtis e variadas. Para alguns, é a distração constante que torna um projeto de trabalho interminável. Para outros, é a impulsividade verbal que se manifesta nas relações, ou a desorganização crónica que transforma compromissos simples em batalhas diárias. E para muitos, há o peso emocional de se sentir diferente numa cultura que valoriza a eficiência constante, como se todos devessem funcionar com o mesmo relógio interno. 

E há também outra dimensão menos falada, mas igualmente poderosa: a regulação emocional. Pessoas com PHDA frequentemente experimentam emoções intensas e rápidas, com dificuldade em “acalmar” a resposta interior, algo que estudos também identificam como parte integrante do quadro.

Mas nem tudo é sombra. Reconhecer que vivemos com PHDA pode ser como abrir uma janela num quarto demasiado quente — entra ar fresco e clarifica-se o que antes parecia inexplicável. A auto-compreensão liberta. E a ciência, atualmente, está a reconhecer cada vez mais esta condição no adulto, com protocolos diagnósticos estruturados e evidências que validam a experiência de milhares de pessoas que, durante anos, sentiram que algo “não estava certo”, sem saber o quê.

Uma Perspetiva de Cuidado e Direção

Se identificas estas sensações em ti — a dificuldade em gerir o tempo, a organização, a tendência a procrastinar, o sentimento de estar sempre “a pensar demais” —, é importante saber que não estás sozinho/a. O caminho começa com escuta e validação.

Do ponto de vista psicológico, existem estratégias que podem realmente fazer diferença:

  • Explorar e reforçar estratégias de gestão de tarefas e organização de atividades,

  • Aprender ferramentas que auxiliem a autorregulação emocional e redução de impulsividade,

  • Trabalhar rotinas de sono e auto-cuidado que minimizem a sobrecarga cognitiva,

  • E, sempre que necessário, integrar a intervenção farmacológica como um complemento que pode equilibrar áreas neurobiológicas intensamente envolvidas na PHDA.

A investigação no domínio da PHDA no adulto mostra que uma abordagem integrada — que combina terapia, psicoeducação, suporte psicossocial e, quando adequado, medicação — produz os melhores resultados na melhoria da qualidade de vida e do funcionamento quotidiano. actamedicaportuguesa.com

O Que Realmente Importa

Ter PHDA não é uma falha de carácter. Não é uma escolha. É uma forma diferente do cérebro funcionar — intensa, complexa, com luzes e sombras — que merece ser entendida com ternura e respeito. Cada pessoa com PHDA carrega consigo não apenas desafios, mas também potencial para criatividade, hiperfoco em áreas de interesse e originalidade de pensamento — florescendo muitas vezes quando encontra contextos que acolhem esta diferença.

Se este texto encontrou um lugar em ti, se tocou uma experiência que já conheces, lembra-te: cada passo de autoconhecimento, cada estratégia aplicada, cada esforço por compreender o teu cérebro, é um poema que estás a escrever para ti. A tua história merece ser ouvida com empatia, e a tua caminhada merece ser acompanhada com ciência, cuidado e humanidade.

Se ao longo desta leitura sentiste que muitas destas palavras poderiam estar a descrever a tua experiência, é importante saber que hoje existem processos de avaliação psicológica especializados para o diagnóstico de PHDA no adulto, baseados em critérios clínicos rigorosos e em instrumentos validados cientificamente. Enquanto Psicóloga Clínica, com formação e experiência nesta área, realizo avaliações cuidadas e integradas, que procuram compreender não apenas os sintomas, mas a pessoa na sua história, nos seus contextos e na forma única como vive o seu funcionamento cognitivo e emocional. O diagnóstico, quando feito com rigor e sensibilidade, não é um rótulo — é muitas vezes um ponto de partida para o alívio, para a organização interna e para escolhas terapêuticas mais ajustadas e conscientes. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Psicologia Clínica em Almada

A Psicologia entrou na minha vida quando desfolhava um livro perdido nas estantes lá de casa, na

minha adolescência. Desde então, que a Psicologia foi e é o meu trilho de vida. Quanto mais descobria sobre a Psicologia, mais me sentia envolvida nos seus distintos e cativantes temas, e decidi que o meu caminho académico se pautaria, invariavelmente, pela formação superior em Psicologia Clínica.

Já são quase 18 anos de experiência profissional em contexto de prática clínica, tendo o meu caminho profissional sido enriquecido pela passagem por Centro de Saúde, Serviços de Psicologia em contexto Escolar, e Clínica Privada....e tantos outros :).

A curiosidade e desejo de saber mais, tem me levado a investir na minha formação profissional em áreas como a Avaliação e Intervenção na Ansiedade e Depressão, Coaching, Intervenção e Avaliação Psicológica em Crianças, Adolescentes e Adultos, entre outras àreas. 

Formadora também por paixão, cultivo e propago conhecimentos a adultos nas áreas da Comunicação e relacionamento interpessoal, Parentalidade e práticas educativas, e áreas de avaliação e intervenção psicológica. 



Exerço atividade em modo presencial em consultório próprio no centro de Almada e em regime online (pensando naqueles que pela distância ou por outras questões, estejam condicionados em realizar as sessões presencialmente). 

Contacte-me para agendar a sua consulta de Psicologia em Almada ou online :) 
Fale comigo,

Dr.ª Patrícia Marques




quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Perdas


Como é díficil encarar as perdas....


As memórias carregadas de saudade e melancolia assombram-nos!

Os sons, os cheiros, as músicas, as rotinas....tantos sinais f
amiliares despertam em nós todos os nossos sentidos, amplificando as recordações...e, inevitavelmente, inundando-nos de angústia, dor, saudade!

"Como te sinto a falta!"

E a dor arranha um pouco mais o nosso âmago!

E a lágrima cai.

"Maldita Saudade!Não me deixas seguir em frente!


Quero deixar de pensar..."

O pensamento está encurralado nas mesmas memórias, nas mesmas angústias!

"Quando sairei deste beco???Quando deixará de doer tanto???Será que me quero libertar??Eu NÃO quero esquecer!!!!"

Mas a memória permanece!E a dor atenua....Por vezes só pr
ecisamos de olhar numa outra perspectiva:


«Vejo que não está perto de mim, mas ainda te sinto a BRILHAR dentro de mim!»


Nem sempre é fácil aliviar a dor!Nem sempre nos sentimos a caminhar para o equilíbrio face á perda....

Por vezes é necessário alguém que nos ajude a encontrar outro caminho, e a encarar a perda num outro sentido!

Fale comigo!

sábado, 23 de julho de 2011

Vida Agrilhoada!


Eu olho para trás, examino os meus passos, vislumbro os medos e a falta de ousadia na qual tropecei continuamente, e penso: «Se ao menos tivesse ariscado!» ou «Se tivesse feito isto....aquilo....»! De facto, quantas vezes não somos nós mesmos o obstáculo das nossas vidas?

São as sombras dos erros passados, dos gritos recebidos, das palmadas conquistadas, da crítica cravejada e dos fracassos precoces que nos constrange os movimentos...E tudo pára!A vida embarga....e com ela a motivação, o riso, a esperança....e tudo fica tão igual e sem graça!

Tudo o que eu quero é atrever-me a viver....confrontando os medos, repudiando as lembranças dos fiascos!E insurjo-me, dou um passo (temido!) e apesar dos suores frios e dos espinhos encontrados, desperto toda a Extâse em mim!

Não seja um «elefante acorrentado» como no conto que partilho de seguida consigo...mais uma vez um conto extraordinário de Jorge Bucay!

O elefante acorrentado

«— Não consigo — disse-lhe. — Não consigo!

— Tens a certeza? — perguntou-me ele.

— Tenho! O que eu mais gostava era de conseguir sentar-me à frente dela edizer-lhe o que sinto… Mas sei que não sou capaz.

O gordo sentou-se de pernas cruzadas à Buda, naqueles horríveis cadeirões azuis do seu consultório. Sorriu, fitou-me olhos nos olhos e, baixando a voz como fazia sempre que queria que o escutassem com atenção, disse-me:

— Deixa-me que te conte…

E sem esperar pela minha aprovação, o Jorge começou a contar.

Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que mais gostava eram os animais. Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos. Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais… Mas, depois da sua actuação e pouco antes de voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas.

No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo. E, embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um ani­mal capaz de arrancar uma árvore pela raiz, com toda a sua força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir.

O mistério continua a parecer-me evidente.

O que é que o prende, então?

Porque é que não foge?

Quando eu tinha cinco ou seis anos, ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia, decidi questionar um professor, um padre e um tio sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado.

Fiz, então, a pergunta óbvia:

— Se é amestrado, porque é que o acorrentam?

Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo, esqueci o mistério do elefante e da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta.

Há uns anos, descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão inteligente e sábio que encontrara a resposta:

O elefante do circo não foge porque esteve atado a uma estaca desde que era muito, muito pequeno.

Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefantezinho puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E, apesar dos seus esforços, não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele.

Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte, e no outro, e no outro… Até que, um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino.

Esse elefante enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge porque, coitado, pensa que não é capaz de o fazer.

Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer.

E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação.

Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força…

— E é assim a vida, Damião. Todos somos um pouco como o elefante do circo: seguimos pela vida fora atados a centenas de estacas que nos coarctam a liberdade.

Vivemos a pensar que «não somos capazes» de fazer montes de coisas, simplesmente porque uma vez, há muito tempo, quando éramos pequenos, tentámos e não conseguimos.

Fizemos, então, o mesmo que o elefante e gravámos na nossa memória esta mensagem: «Não consigo, não consigo e nunca hei-de conseguir.»

Crescemos com esta mensagem que impusemos a nós mesmos e, por isso, nunca mais tentámos libertar-nos da estaca.

Quando, por vezes, sentimos as grilhetas e as abanamos, olhamos de relance para a estaca e pensamos:

Não consigo e nunca hei-de conseguir.

O Jorge fez uma longa pausa. Depois, aproximou-se, sentou-se no chão à minha frente e prosseguiu:

— É isto que se passa contigo, Damião. Vives condicionado pela lembrança de um Damião que já não existe, que não foi capaz.

»A única maneira de saberes se és capaz é tentando novamente, de corpo e alma… e com toda a forca do teu coração!»



Liberte as amarras!Experimente falar comigo....

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Psicoterapia com Adultos


Aqui fica mais um rabisco criado por mim!

Este foi um texto criado para um site de um Consultório com o qual colaboro, mas que se enquadra no propósito deste meu espaço:

Cá com os meus botões,

Eu confidencio esta dor que me assombra, rasgo as memórias que me atravessam os sonhos, e grito em silêncio, ansiosa por um suspiro de alívio...que custa a despertar!

Penetro nos reflexos do espelho, e procuro em mim a resposta que não ouso encontrar!Desejo agarrar os estilhaços de felicidade que outrora ostentavam os meus olhos, mas estes escapam-se por entre a mágoa que me emerge! Repugna-me o que vejo, e o que sinto, não sinto o corpo que é meu!Não sinto o meu eu.Quem sou eu agora?

O cansaço denuncia-se nas palavras mudas, nos movimentos inertes, na vontade que se engaiola pelo temor de um Futuro enegrecido...Mas há mais negritude que esta?

Quero escapar destas emoções, deste sentir oco, do vazio que preenche este labirinto na mente! E penso, penso, penso...e penso!E ouso reagir, e aí choro, grito, arranho e faço batota...Mascaro-me e trespasso os limites, rio-me das regras, exacerbo os prazeres...em vão!Pois a tristeza entranha-se, perturbando as sensações (e já não sinto!), apagando o sonho (e já não sonho!), e denunciando a queda do desejo(e já não desejo!)!

Eu espio as razões deste sentir, abro gavetas, espreito e encontro imagens, ideias, memórias, silêncios, que me explicam esta dor. Mas num instante denuncio ás certezas...e já nada sei, já nada encontro. Não compreendo este desamparo...

E a dor vai e vem.

Se ao menos houvesse uma ligadura que a ocultasse! Mas ela mantém-se à espreita, por vezes (re) surgindo em cada trasição da nossa vida, às vezes num passo em falso, numa partida do «Destino» - perde-se alguém, o amor, o emprego, dá-se demais e em troca o pouco ou nada...quaisquer que sejam os tropeções que a Vida atrai, eis a dor, a mágoa!E volta a melancolia!Congela o tempo, a vontade, o pensamento, o sentir......

E basta!

Marco um «encontro» – dito terapêutico! – e vejo no Outro, o olhar aceitante,sinto o ouvido á escuta, e as palavras ecoam, fazendo-me pensar, sentir, compreender, confrontar, submergir, denunciar, sonhar,....reparar!E a dor exalta-se, grita, esbraceja, resiste, e liberta-se... num processo a Dois, em que o Psicólogo vai interpretando, esclarecendo, questionando, reestruturando, espelhando, e amparando!

E volto a olhar ao espelho e já me reconheço!Mas atentamente sou um Eu diferente, permaneço sensível às impressões e às emoções, mas psicologicamente fortificado, consciente da minha grandeza e vulnerabilidade, e mais hábil nas minhas defesas!E a lágrima cai. Aliviado.E o sonho (re)nasce.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A Cidade dos Poços

Hoje partilho uma história maravilhosa do Psicoterapeuta Jorge Bucay:

A Cidade dos Poços

Esta história representa para mim o símbolo da corrente que une as pessoas através da sabedoria dos contos.
Contou-ma uma paciente que a tinha ouvido, por sua vez, da boca de um ser maravilhoso, o padre crioulo Mamerto Menapace. Assim como a reproduzo agora, ofereci-a uma noite a Marce e a Paula.
Jorge Bucay

Aquela cidade não era habitada por pessoas, como todas as outras cidades do planeta. Aquela cidade era habitada por poços. Poços vivos... mas afinal poços. Os poços distinguiam-se entre si não somente pelo lugar onde estavam escavados, mas também pelo parapeito (a abertura que os ligava ao exterior).
Havia poços ricos e ostensivos com parapeitos de mármore e metais preciosos; poços humildes de tijolo e madeira, e outros mais pobres, simples buracos rasos que se abriam na terra. A comunicação entre os habitantes da cidade fazia-se de parapeito em parapeito, e as notícias corriam rapidamente de ponta a ponta do povoado.
Um dia, chegou à cidade uma «moda» que certamente tinha nascido nalgum pequeno povoad humano. A nova ideia assinalava que qualquer ser vivo que se prezasse deveria cuidar muito mais do interior do que do exterior. O importante não era o superficial, mas o conteúdo. Foi assim que os poços começaram a encher-se de coisas. Alguns enchiam-se de jóias, moedas de ouro e pedras preciosas. Outros, mais práticos, encheram-se de electrodomésticos e aparelhos mecânicos. Outros ainda optaram pela arte, e foram-se enchendo de pinturas, pianos de cauda e sofisticadas esculturas pós-modernas. Finalmente, os intelectuais encheram-se de livros, de manifestos ideológicos e de revistas especializadas.
O tempo passou.
A maioria dos poços encheu-se a tal ponto que já não podia conter mais nada. Os poços não era todos iguais, por isso, embora alguns se tenham conformado, outros pensaram no que teriam de fazer para continuar a meter coisas no seu interior...Um deles foi o primeiro. Em vez de apertar o conteúdo, lembrou-se de aumentar a sua capacidade, alargando-se.
Não passou muito tempo até que a ideia começasse a ser imitada. Todos os poços utilizavam grande parte das suas energias a alargar-se para criarem mais espaço no seu interior. Um poço, pequeno e afastado do centro da cidade, começou a ver os seus colegas que se alargavam desmedidamente. Ele pensou que se continuassem a alargar-se daquela maneira, dentro em pouco confundir-se-iam os parapeitos dos vários poços e cada um perderia a sua identidade...
Talvez a partir dessa ideia, ocorreu-lhe que outra maneira de aumentar a sua capacidade seria crescer, mas não em largura, antes em profundidade. Fazer-se mais fundo em vez de mais largo.
Depressa se deu conta de que tudo o que tinha dentro dele lhe impedia a tarefa de aprofundar. Se quisesse ser mais profundo, seria necessário esvaziar-se de todo o conteúdo...
A princípio teve medo do vazio. Mas, quando viu que não havia outra possibilidade, depressa meteu mãos à obra. Vazio de posses, o poço começou a tornar-se profundo, enquanto os outros se apoderavam das coisas das quais ele se tinha despojado… Um dia, algo surpreendeu o poço que crescia para dentro. Dentro, muito no interior e muito no fundo... encontrou água!
Nunca antes nenhum outro poço tinha encontrado água.
O poço venceu a sua surpresa e começou a brincar com a água do fundo, humedecendo as suas paredes, salpicando o seu parapeito e, por último, atirando a água para fora. A cidade nunca tinha sido regada a não ser pela chuva, que na verdade era bastante escassa. Por isso, a terra que estava à volta do poço, revitalizada pela água, começou a despertar. As sementes das suas entranhas brotaram em forma de erva, de trevos, de flores e de hastezinhas delicadas que depois se transformaram em árvores...
A vida explodiu em cores à volta do poço afastado, ao qual começaram a chamar «o Vergel».
Todos lhe perguntavam como tinha conseguido aquele milagre.
— Não é nenhum milagre —respondeu o Vergel. — Deve procurar-se no interior, até ao fundo.
Muitos quiseram seguir o exemplo do Vergel, mas aborreceram-se da ideia quando se deram conta de que para serem mais profundos, se tinham de esvaziar. Continuaram a encher se cada vez mais de coisas...
No outro extremo da cidade, outro poço decidiu correr também o risco de se esvaziar...
E também começou a escavar...
E também chegou à água...
E também salpicou até ao exterior criando um segundo oásis verde no povoado...
— Que vais fazer quando a água acabar? —perguntavam-lhe.
— Não sei o que se passará —respondia ele.— Mas, por agora, quanto mais água tiro, mais água há.
Passaram-se uns meses antes da grande descoberta.
Um dia, quase por acaso, os dois poços deram-se conta de que a água que tinham encontrado no fundo de si próprios era a mesma... Que o mesmo rio subterrâneo que passava por um inundava a profundidade do outro. Deram-se conta de que se abria para eles uma vida nova.
Não somente podiam comunicar um com o outro de parapeito em parapeito, superficialmente como todos os outros, mas a busca também os tinha feito descobrir um novo e secreto ponto de contacto. Tinham descoberto a comunicação profunda que somente conseguem aqueles que têm a coragem de se esvaziar de conteúdos e procurar no fundo do seu ser o que têm para dar...

Jorge Bucay
Contos para pensar
Cascais, Editora Pergaminho, 2004

sábado, 9 de julho de 2011

Borderline

Vive num pequeno e frágil mundo de cristal, olhando por entre as vítreas paredes do seu refúgio, para toda a realidade que o circunda, tentando agarrar firmemente um fragmento desse mundo, para que no momento seguinte o perca e perante os seus olhos veja afastar-se toda aquela vida que o abraçou....um pouco. A vida gira em seu torno, bailando a leves passos intacta e crua, agitando-se, aproximando-se, ondulando no seu horizonte! Num impulso de terror , estende o seu braço num gesto de desespero, á procura de um sopro de amor (um apoio emocional).

Quando finalmente um pedaço de amor poisa sobe o seu mundo, os receios entranham na sua mente , teme o abandono, ficar novamente só...E quando tudo parece tão estável, tão harmonioso, prende o seu Amor a um pedaço da sua carne, para que fiquem unos eternamente.

E se o seu amor voar por um momento?

Raiva!Temor!Angústia!

A escuridão de um só instante assombra um destino futuro igual.....É um presságio de fuga, vazio....o nada!

A alma perde-se , vagueia por dentro sem encontrar sentido! Entre os gritos estridentes do silêncio, a alma contorce-se , envolta numa penumbra de solidão. Geme na escuridão do Nada, pedindo em clemência pela melodia de um som caído neste vazio!

O Silêncio, Senhor da dor intemporal, Mestre do Suspiro da melancolia, assombra a Alma em desespero, que assim se envolve em lágrimas caídas no nada. Esta perde-se, isola-se na luz, fugindo da Dor que lhe afugenta a Vida...

Vive rodeado de medos e incertezas, o mundo parece-lhe precário e duvidoso, todos os caminhos que se lhe apresentam poderão ruir, por isso vive (sobrevive!) em permanente ciclo de dúvidas. Todos os passos que toma são encarados com receio, o olhar sobre o Futuro é incerto.

A labilidade paralisa-o, congela o devir, é o seu modo de vida! Um constante baloiçar, o temer pela seguinte queda no vazio. E a cada instante perde-se, confunde-se e torna-se sombra. Sente-se mal-compreendido, mal-amado e tão somente só! O mundo está eternamente em clivagem....

A sua vida assemelha-se á tarefa do trapezista, balanceando um pouco em cada passo que avança na corda da Vida (ou será Morte?), equilibrando-se e parando um pouco para vislumbrar a força que o sustem, olha todo o público lá longe....o medo assombra-o, está só naquela angustiante caminhada. Passo a passo oscila, o temor agita-o. Pensa, basta um pequeno deslize, um mero dispersar para que caia ali no vazio, na obscuridão....silêncio novamente!

Todo o público o admira, aplaude, mas nunca estarão suficientemente perto para o salvar, estão longe demais para o apoiar, para o tornarem seguro e vivo!

Caminha concentrado fobicamente na sua tarefa, ganhando força para continuar ao som de aplausos num segundo, e caindo no desespero no instante que se segue, quando compreende que a sua Vida está imortalmente entregue ao vazio e solidão.

Aos olhos do Borderline, o destino é sempre uma incógnita, algo quebradiço e precário, como uma fina camada de gelo, onde cada passo é dado em permanente reflexão, uma profunda análise de mudanças que possam ocorrer. Vivem agrilhoados a uma instabilidade toda a sua vida, – á qual Coimbra de Matos (2002), sabiamente chama "instabilidade estável"– a qual influencia vários domínios da sua identidade: escolhas profissionais e afectivas, a imagem que forma dos seus parceiros, a imagem de si mesmo, valores e gostos pessoais, identidade sexual e objectivos a longo prazo.

Tudo é encarado com incerteza, sendo constante a oscilação entre sentimentos antagónicos como amor/ódio; esperança/incerteza. Pois no mundo de um Borderline não existem “cinzentos”!

Estamos perante uma Perturbação de Personalidade que começa a manifestar-se no fim da adolescência e início da vida adulta. Na sua génese estão, geralmente, estilos educativos e ambientes familiares instáveis com situações traumáticas de abandono, abuso psicológico, maus-tratos e negligência.

São caracterizados por um padrão persistente de instabilidade que afecta as suas relações interpessoais, o seu humor e a sua auto-imagem. Têm pouco controlo sobre os seus impulsos.

Estão frequentemente presentes a maioria destas características:

1. Esforços frenéticos para evitar o abandono real ou imaginado – Intolerância à solidão.

2. Estabelecem relações interpessoais intensas e instáveis marcadas pela alternância entre idealização e desvalorização (Por um momento vê a pessoa como um Anjo, inteiramente Boa, para no outro se tornar num Demónio, cheia de más intenções).

3. Perturbação de identidade: instabilidade persistente e marcada da auto-imagem ou do sentimento de si próprio (num momento sente-se superior aos outros, num outro momento sente-se inferior e inútil, por ex.).

4. Impulsividade, em pelo menos duas áreas que são potencialmente autolesivas: gastos excessivos, abuso de substancias, condução agressiva, voracidade alimentar, etc.

5. Comportamentos, gestos ou ameaças recorrentes de suicídio ou comportamento automutilante.

6. Exuberantes manifestações de instabilidade afectiva, oscilando bruscamente entre emoções como o amor e ódio, entre a indiferença ou apatia e o entusiasmo exagerado, alegria efusiva e tristeza profunda.

7. Sentimento crónico de vazio.

8. Incapacidade de sentir prazer: nunca se sentem totalmente satisfeitos com nada.

É a patologia da insegurança, o borderline necessita de uma figura de protecção, a qual lhe faltou quando mais necessitou - na sua infância. Anseia pelo embalo, pelo amor que nunca chegou a sentir. Agora, busca incessantemente essa presença, e quando encontra uma qualquer figura ideal, investe e projecta nesta, criando uma relação de simbiose, visando mantê-lo permanentemente a seu lado. Há a emergência do amor perdido, por uma mãe e um pai presentes , que lhe dêem a segurança necessária para que cresça sendo ele mesmo, para que possa construir a sua própria identidade sem receios, e para que o Futuro lhe surja repleto de esperança.

Fale comigo...